Capão Bonito, 18 de julho de 2024

Comportamento

CHEIRO DE SAUDADE

Comportamento

CHEIRO DE SAUDADE

As vezes o cinema, delicadamente, resguarda algumas semelhanças com as nossas vidas, e não temo em citar como exemplo um filme que se tornou um clássico, “A ÚLTIMA SESSÃO DE CIINEMA’. Produzido nos anos setenta em preto e branco, foca Anarene, uma cidadezinha do Texas nos anos cinquenta, onde o cinema era o ponto base de encontros dos jovens e a única diversão de inúmeras pessoas. Com o encerramento do cinema, como aconteceu com o nosso Cine São José, as pessoas ficaram tristes e sem Norte durante bastante tempo. Esse filme conseguiu retratar a melancolia reinante na rua General Carneiro, após o cerramento das portas do Cine São José.

Lembro-me como se fosse hoje do clima de desolação que ficou naquela rua. Foi numa tardinha que estive em Capão Bonito e a convite de dois professores de Português, um deles cantor, ambos meus amigos, que os acompanhei em um salão defronte ao Bar do Dito e do Cine São Jose, onde eles  tentaram demover uma senhora do relacionamento deles, de montar um Bar Restaurante naquele lugar.

Aquela senhora de voz grave calmamente tranquilizou o Professor/Cantor, asseverando que ela também era professora, ocupava um cargo público, não precisava do estabelecimento comercial para viver e que, se não desse certo, tudo bem, teria sido apenas um investimento.

Essa senhora, juntamente com outras boas coisas que Itararé já liberou para nossa cidade, demonstrou ser uma empreendedora, dinâmica, inteligente e humana. Tocou o projeto em frente e fez algo inusitado até então, montou um Bar Restaurante com a orientação do SENAC, e os seus futuros funcionários tiveram meses de treinamento, tanto no atendimento como nos serviços e escolhas dos cardápios.

Além de comandar toda estrutura comercial, ainda foi uma mulher de muita sorte, pois, ao colocar seu filho no comando do Bar, revelou para nossa cidade um moço com muito talento e  dom para receber bem as pessoas, fazendo a Rua do Cine  São José nunca mais ser a mesma, pelo menos até altas horas comumente alcançando as madrugadas.

O Cheiro Verde, nome dado ao Bar e Restaurante, atingiu alto grau de referência em nossa cidade e também fora daqui. Relembro de certa vez em conversas com o Diretor de Marketing da Nossa Caixa Nosso Banco, quando mencionei que era de Capão Bonito, que ele descreveu maravilhas da cozinha do restaurante, e que seus colegas e amigos não acreditavam que aquele restaurante no interior de São Paulo servisse pratos como salmão, camarão e lagosta. Contara-me ele que conheceu o Cheiro Verde quando tivera que permanecer em CB por mais de um mês, na ocasião como diretor de Câmbio do Bamerindus, para acompanhar e fazer cumprir uma exportação de Granito para o Japão, pois o exportador do Granito Capão Bonito estava dificultando sua realização.

Ah, ele também mencionou sobre uma mulher que fazia uns doces maravilhosos na rua do antigo Correio (rua Quintino Bocaiuva), mas essa não consegui localizar.

Foi nesse espaço e clima que O Cheiro Verde cresceu, inovou e adquiriu o prédio do Cine São Jose e admiravelmente, num respeito absoluto com a história do mesmo, conservou o “poleiro” e outros pontos de memorável lembrança de alguns Capão-bonitenses ilustres, e ainda manteve o nome do estabelecimento: CHEIRO VERDE – CINE SÃO JOSÉ. Com a sede própria, tornou-se referência como Dona Lucinha, em Belo Horizonte, como o Alemão em ITU-SP e, em nossa cidade e região, o melhor lugar para se beber e comer (é o que falávamos quando consultados por turistas)

Tal como no encerramento do Cine São Jose, naquela ocasião quem ficou bastante triste foi um querido Cirurgião Dentista, cuja vida naquele cinema se confunde com a do Alfredo, personagem central do filme Cine Paradiso.

Agora, com o encerramento do CHEIRO VERDE, quem vai ficar bastante triste é um outro Cirurgião Dentista, filho de um pai famoso, que tem no canto do balcão um atendimento especial. Que outro BARMAN teria a preocupação de disponibilizar um copinho personalizado tipo “cowboy” para seu deleite com um Jack Daniels e sua beer, degustada sempre aos domingos com a máxima solenidade?

Sei disso porque quando estou em CB, tomo minha saideira para SP naquele espaço do balcão perto do doutor (ele não gosta que o chame assim) juntamente com um caro amigo, e sempre escolhemos a bebida de acordo com o tempo: vinho, cerveja, gin tônica e a última vez foi Caipirinha com cachaça e pouco gelo.

Como se fosse uma “Última Sessão de Cinema”, naquele dia 14 de julho, as 14 horas e vinte e oito minutos e alguns segundos do ano 2019 eu e meu amigo tomamos as últimas caipirinhas no CHEIRO VERDE CINE SÃO JOSÉ, atendidos pelo maior e mais querido BARMAN que esta cidade já conheceu. Como bem identificou o velho e amigo “Machadiano “da praça, está dito numa velha canção: só ficou aquele CHEIRO DE SAUDADE

Antonio Isidoro de Oliveira (Poli)

Poli.oliveira@terra.com.br

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