Capão Bonito, 18 de julho de 2024

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A praça já não é a mesma

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A praça já não é a mesma

Por Francisco Lino

Em 2012, escrevi um artigo que quase se assemelhava a uma crônica de morte anunciada. Em março de 2012, ao completar 32 anos fiz uma pequena homenagem aos então amigos sexagenários, que hoje, muitos deles já beiram a casa do 80.

Naquela ocasião, comemoramos o meu aniversário com uma saborosa feijoada no extinto restaurante Espaço Paladar. A refeição sempre foi um pretexto para os inesquecíveis bate-papos sobre arte, cultura, cinema, política, história, e também muita conversa fiada.

Nesse encontro, ouvi pela primeira vez o nome do cineasta italiano Giuseppe Tornatore e um dos seus célebres filmes:  o emocionante Cinema Paradiso. É uma obra encantadora, principalmente para nós, caipiras do interior, que a cada cena, nos remete à lembranças de infância ou nos aproxima dos nossos antepassados.

O filme traz ainda um personagem único e monólogo. Sua participação nessa obra cinematográfica se limitava apenas à uma frase: “A praça é minha”. Da magia do cinema para a vida real, Capão Bonito foi privilegiada, como cidade, de ser o berço de um personagem atípico como o do “Cine Paradiso”, e que também valeria, sem dúvida, um bom longo-metragem.

Tinha um jeito único e desprendido de viver. Apenas vivia, dia a dia, minuto a minuto, deixando sempre “a vida te levar”. O baralho e a jogatina às vezes o desvirtuava da sua essência, mas nada que uma boa música dos clássicos da MPB não o tirasse desse submundo.

Apesar de passar seus últimos anos de vida pagando aluguel de uma pequena casa de dois cômodos na Altino Arantes, Itamar passava a maior parte do tempo na praça Rui Barbosa, que foi o seu único e verdadeiro lar.

Quando jovem, ousou e desbravou o Brasil pelas vias artísticas que ainda engatinhava no país. Foi amigo pessoal de Mazaroppi e de outros ícones da cultura popular. Trabalhou como porteiro de circo, atuou como bailarino dos primeiros programas de auditório da TV Brasileira e ainda estrelou a campanha publicitária “Mexa-se”, propagada pelo Unibanco na década de 60/70 em escala nacional.

Virou empresário artístico e promoveu centenas de shows e eventos do gênero. Lançou a dupla Chitãozinho e Xororó na região e carregou os irmãos Sandy e Júnior no colo, tamanha era sua familiaridade com os famosos cantores sertanejos.

Já no fim da vida, dos shows com famosos passou a comercializar discos,  CD’s e DVD’s “genéricos”. Não fazia isso pelo lucro das vendas, mas pelo prazer do seu simples modo de vida.

Há 10 anos a cidade já não tem mais o Itamar, e também não tem mais praça! Os canteiros, as tintas, o piso… jamais substituirão a alma.

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